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Eleições 2026: regras contra deepfakes avançam, mas maior ameaça é a desinformação “invisível”, diz especialista

por Notícia Baré
Uso de inteligência artificial e deepfakes coloca novos desafios para a Justiça Eleitoral e para o combate à desinformação nas eleições de 2026.

O uso de inteligência artificial, deepfakes e outras formas de manipulação digital transformou as eleições gerais de 2026 em um dos maiores desafios da história recente da democracia brasileira. Para tentar conter abusos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou em março a Resolução nº 23.755, que estabelece regras inéditas para a propaganda eleitoral, com foco na transparência e no controle de conteúdos sintéticos. A norma é uma resposta à onda global de desinformação que marca processos eleitorais desde 2024, atingindo bilhões de eleitores ao redor do mundo.

A resolução introduz o conceito de “conteúdo sintético multimídia”, abrangendo deepfakes e materiais gerados ou manipulados por IA, e obriga campanhas a rotular claramente esse tipo de conteúdo, informando inclusive qual tecnologia foi usada. Também proíbe a veiculação de novos conteúdos sintéticos nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação, criando uma espécie de “zona de proteção” em torno do dia da eleição. Além disso, plataformas digitais passam a ter responsabilidade solidária em caso de descumprimento de decisões judiciais e ficam proibidas de usar sistemas de IA para ranquear ou recomendar candidaturas.

Para a especialista em inteligência artificial Vitória Luz, certificada pela Kellogg School of Management, a exigência de rotulagem é um avanço, mas está longe de ser suficiente. Ela destaca que a medida atinge com mais precisão a propaganda oficial, mas tem dificuldade de alcançar redes informais, grupos fechados e fluxos orgânicos de desinformação. “Rotular depende de cumprimento voluntário ou de detecção posterior, e o dano pode ocorrer em poucas horas”, alerta.

Estudos recentes mostram que o problema vai além das deepfakes sofisticadas. Pesquisa publicada em 2025 no periódico The International Journal of Press/Politics indica que eleitores tendem a confiar em conteúdos audiovisuais manipulados, sejam eles deepfakes, criados por IA, ou “cheapfakes”, feitos com cortes, desaceleração ou simples descontextualização. O trabalho reforça o efeito da “primazia visual”: as pessoas acreditam mais no que veem e ouvem do que no que leem.

Na prática, isso significa que não é preciso um vídeo hiper-realista para influenciar o voto. Conteúdos plausíveis, com manipulações básicas, podem ser suficientes para moldar narrativas quando circulam em larga escala. O mesmo estudo aponta que checagens jornalísticas em formato audiovisual são capazes de reduzir significativamente os danos, desde que sejam rápidas e robustas, aproximando a percepção do público de um cenário de normalidade.

Vitória Luz chama atenção para um risco ainda mais silencioso: a erosão contínua do ambiente informacional ao longo da campanha. Revisões científicas recentes sobre desinformação gerada por IA sugerem que o principal impacto não está em um único “grande vídeo”, mas na poluição gradual do debate público, com ondas sucessivas de conteúdos falsos ou distorcidos que geram apatia e desengajamento do eleitor.

Outro desafio é a velocidade com que informações falsas se espalham. Estudo publicado em 2025 na revista Science Advances indica que notícias falsas podem circular até 3,7 vezes mais rápido do que conteúdos verdadeiros, o que cria uma vantagem estrutural para a desinformação. Segundo a especialista, a moderação enfrenta dificuldades técnicas para detectar manipulações em áudio, vídeos curtos e conteúdos fora de contexto, especialmente em meio ao volume massivo gerado em períodos eleitorais.

O uso “legítimo” de IA por campanhas também entra no radar. Ferramentas de tradução e clonagem de voz já são usadas por líderes internacionais para falar com públicos em diferentes idiomas, criando proximidade artificial com eleitores. Sistemas de geração automática de textos, imagens e comentários em escala, além de robôs conversacionais que simulam pessoas reais, permitem microssegmentação opaca e amplificação de conteúdos polarizadores de forma difícil de rastrear.

Apesar das lacunas, a resolução do TSE coloca o Brasil entre os países com regulamentação mais avançada sobre o uso de IA em eleições, incluindo mecanismos como a inversão do ônus da prova em casos complexos de perícia. O grande ponto de interrogação, segundo Vitória Luz, é a capacidade operacional da Justiça Eleitoral e das plataformas em responder com rapidez na “janela crítica” antes da votação.

Para a especialista, a proteção mais eficaz não virá apenas de soluções tecnológicas, mas de educação midiática e hábitos permanentes de checagem. Ela defende que jornalistas, instituições e eleitores adotem práticas mais rigorosas de verificação, especialmente em relação a conteúdos audiovisuais compartilhados em massa.

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