Início DestaquesRelatório da Unesco mostra que seus sítios protegem mais de 60% das espécies do planeta e armazenam 240 gigatoneladas de carbono

Relatório da Unesco mostra que seus sítios protegem mais de 60% das espécies do planeta e armazenam 240 gigatoneladas de carbono

por Notícia Baré
Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e Parque Nacional do Iguaçu estão entre os sítios brasileiros da Unesco que ajudam a preservar biodiversidade e regular o clima global.

Um relatório divulgado pela Unesco nesta terça-feira (21), em Paris, destaca a importância global dos sítios sob sua proteção para a preservação da biodiversidade, do clima e dos modos de vida de comunidades inteiras. Segundo o documento “People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions”, a rede reúne mais de 2.260 áreas, incluindo Patrimônios Mundiais, Reservas da Biosfera e Geoparques, que somam mais de 13 milhões de quilômetros quadrados — uma extensão maior que a de China e Índia juntas.

No Brasil, entre os locais destacados estão o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade em 2024, e o Parque Nacional do Iguaçu, inscrito na lista da Unesco desde 1986. Nessas áreas, a diversidade é impressionante: só no Iguaçu, são mais de 2 mil espécies de plantas, 400 de aves e até 80 de mamíferos; já nos Lençóis, o Ministério do Meio Ambiente aponta pelo menos quatro espécies ameaçadas, incluindo o peixe-boi-marinho e o guará, além de mais de 100 espécies de aves e dezenas de répteis.

De acordo com o relatório, os sítios da Unesco abrigam mais de 60% das espécies mapeadas em todo o mundo, sendo que cerca de 40% delas não existem em nenhum outro lugar do planeta. Essas áreas também armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, o equivalente a quase duas décadas das atuais emissões globais se esse carbono fosse liberado, e as florestas localizadas nesses territórios respondem sozinhas por aproximadamente 15% do carbono absorvido pelas florestas do mundo.

O documento ressalta que, enquanto as populações de animais selvagens caíram 73% globalmente desde 1970, nos sítios da Unesco elas permaneceram relativamente estáveis. Um quarto dessas áreas coincide com territórios de povos indígenas, e mais de mil línguas são faladas dentro dessas regiões, reforçando a ligação entre conservação ambiental e diversidade cultural.

Para o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, esses sítios geram benefícios concretos para comunidades e ecossistemas. Ele afirma que, nesses territórios, as populações prosperam, o patrimônio da humanidade se mantém e a biodiversidade é preservada, enquanto em outras regiões a degradação avança. O relatório calcula que cerca de 10% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) mundial é produzido nesses sítios e em suas áreas adjacentes.

Ao mesmo tempo, a pressão sobre essas áreas cresce rapidamente: quase 90% dos sítios enfrentam altos níveis de estresse ambiental e os riscos ligados ao clima aumentaram 40% na última década. A Unesco alerta que mais de um em cada quatro sítios pode atingir pontos de ruptura até 2050, com impactos irreversíveis como desaparecimento de geleiras, colapso de recifes de coral, deslocamento de espécies, maior escassez hídrica e transformação de florestas de sumidouros em fontes de carbono.

O relatório também mostra que aproximadamente 900 milhões de pessoas vivem nesses territórios, o equivalente a 10% da população mundial. Pelo menos 25% dos sítios se sobrepõem a terras indígenas, proporção que chega perto de 50% em regiões como África, Caribe e América Latina, reforçando a necessidade de governança mais inclusiva com comunidades locais e povos tradicionais.

Apesar dessa relevância, apenas 5% dos planos nacionais sobre clima incorporam de forma clara os sítios da Unesco, embora 80% dos planos de biodiversidade já façam essa referência. A organização recomenda intensificar ações baseadas em quatro pilares: restaurar ecossistemas para aumentar a resiliência, fortalecer a cooperação transfronteiriça, integrar os sítios às políticas climáticas e adotar modelos de gestão que reconheçam o protagonismo de povos indígenas e comunidades locais.

Segundo a Unesco, as áreas sob sua proteção provam que é possível conciliar desenvolvimento humano e conservação. O relatório cita casos de estabilização de fauna em regiões pressionadas e de recuperação de espécies ameaçadas, como gorilas-das-montanhas em áreas de conflito, como exemplos de sucesso quando há proteção contínua e envolvimento das comunidades. A mensagem central é clara: investir hoje nesses sítios significa resguardar ecossistemas únicos, culturas vivas e a subsistência de centenas de milhões de pessoas para as próximas gerações.

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