
Empresas de tecnologia e telecomunicações estão disparando a construção de data centers no Brasil, mesmo após o fim do Redata, pacote de incentivos fiscais do governo federal voltado para esse setor.
Levantamento da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), compartilhado com o Ministério das Comunicações, mostra que o país deve multiplicar por cinco a capacidade instalada dessas estruturas nos próximos anos.
Hoje, a estimativa é de um “parque” de data centers de cerca de 760 megawatts de capacidade.
Os projetos já em construção ou em fase de planejamento somam 4.293 megawatts, segundo dados obtidos pelo podcast Deu Tilt, do UOL, o que representa um salto sem precedentes para a infraestrutura digital brasileira.
Na comparação regional, o volume de data centers em implantação no Brasil equivale ao que todos os outros países da América Latina — como México, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai — têm hoje e estão adicionando juntos.
Na prática, o país caminha para concentrar, dentro de suas fronteiras, uma “América Latina inteira” em capacidade de processamento em nuvem e inteligência artificial.
Esse avanço ajuda a explicar por que data centers se tornaram um requisito básico para atrair investimentos em IA, computação em nuvem e serviços digitais de grande escala.
Mesmo sem o Redata, o setor encontrou outros caminhos de financiamento: entre 2003 e 2025, cerca de R$ 600 milhões do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) foram destinados a linhas de crédito para data centers via BNDES, além da liberação de R$ 106 milhões do Funttel em 2025.
Se, de um lado, o movimento reforça o Brasil como polo estratégico de infraestrutura digital, de outro reacende o debate sobre impacto ambiental e social dessas instalações.
No antigo programa de incentivos, havia contrapartidas ligadas a consumo de água, eficiência energética e uso de fontes renováveis; sem essas exigências, os novos projetos têm liberdade para definir, por conta própria, tecnologias de refrigeração e matriz de energia, e ainda não há transparência consolidada sobre esses critérios.
O governo discute agora o Plano Nacional de Data Centers, que pode classificar essas estruturas como infraestrutura crítica, exigindo protocolos mais rigorosos de segurança e padrões mínimos para mitigar impactos sobre comunidades do entorno e o meio ambiente.
Organizações da sociedade civil já recorrem a instâncias internacionais para pressionar o Brasil a definir regras mais claras para a expansão de data centers, garantindo benefícios econômicos sem repetir erros em áreas de alta demanda por energia e água.

