Início GeralBrasilBanco Master pagou R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia em quatro anos, apontam dados da Receita

Banco Master pagou R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia em quatro anos, apontam dados da Receita

por Notícia Baré
Enquanto a esposa de Moraes teria recebido R$ 3,6 milhões mensais do Banco Master, o ministro teria intercedido pela instituição junto ao Banco Central

Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado, no Senado, mostram que o Banco Master desembolsou ao menos R$ 543 milhões em honorários para 91 escritórios de advocacia entre 2022 e 2025. O volume de recursos pagos a bancas jurídicas cresceu rapidamente no período: saiu de cerca de R$ 40,1 milhões em 2022 para R$ 56,8 milhões em 2023, alcançou R$ 183,7 milhões em 2024 e chegou a mais de R$ 262,4 milhões em 2025, ano em que a instituição foi liquidada pelo Banco Central.

Os dados oficiais, aos quais a Folha teve acesso, indicam que pelo menos 15 escritórios receberam valores acima de R$ 10 milhões. Entre eles está o Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, que aparece na liderança da lista com R$ 80,2 milhões pagos em 22 meses, entre 2024 e 2025 — o equivalente a cerca de R$ 40,1 milhões por ano. O escritório afirma que não confirma as informações, classifica os dados como “incorretos e vazados ilicitamente” e diz que informações fiscais são sigilosas.

Na segunda posição aparece o Monteiro, Rusu, Cameirão e Bercht Sociedade de Advogados, que, somando dois CNPJs ligados à banca, recebeu R$ 79,1 milhões ao longo de quatro anos, uma média de R$ 20 milhões anuais. Em nota, o escritório contesta os valores divulgados e alega que também sofreu com a inadimplência do Master, não tendo recebido parte dos honorários contratados. A banca afirma ter atuado em cerca de 28 mil processos relacionados ao banco, reduzindo mais de R$ 305 milhões em passivos, o que, segundo a defesa, demonstra a proporcionalidade entre o trabalho prestado e os honorários.

Dois escritórios ligados ao advogado Walfrido Warde receberam R$ 76,6 milhões de 2022 a 2025, aproximadamente R$ 19 milhões por ano. Warde foi um dos principais defensores de Daniel Vorcaro a partir de 2017 e, segundo investigadores, teria participado de uma estratégia considerada agressiva para tentar reverter a liquidação do banco. Em representação enviada ao STF, a PF cita mensagens em que o advogado relata estar “infernizando” um juiz federal horas antes da primeira prisão de Vorcaro; o escritório afirma que respeita o sigilo entre cliente e advogado e que não atuou pelo Master no STF ou no TCU.

O Gabino Kruschewsky Advogados Associados aparece como o quarto escritório que mais recebeu recursos, com R$ 54 milhões entre 2022 e 2025, média de R$ 13,5 milhões por ano. A banca diz ter atuado em mais de 45 mil processos envolvendo o Master, dos quais cerca de 30 mil ainda tramitam, e afirma que a média de R$ 1.200 por processo é compatível ou até inferior à praticada no mercado em causas semelhantes. O escritório sustenta que a checagem exata dos valores demandaria acesso à contabilidade interna, mas que os números divulgados demonstram “razoabilidade”.

A documentação entregue à CPI aponta ainda pagamentos a figuras ligadas à política. O Master declarou ter repassado valores ao escritório do ex-presidente Michel Temer, ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e à banca da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski, além de outros nomes do meio político. O escritório de Temer, contratado para atuar na tentativa de venda do Master ao BRB, teria recebido R$ 10 milhões, embora o ex-presidente diga que o montante foi de R$ 7,5 milhões. Já o escritório Lewandowski Advocacia recebeu ao menos R$ 6,1 milhões a partir de novembro de 2023; o ex-ministro afirma que a banca prestou consultoria jurídica ao banco.

Os pagamentos fazem parte do contexto em que o Master intensificou sua atuação jurídica e política, em meio ao avanço das investigações da Polícia Federal e às negociações para nacionalizar a instituição por meio da venda ao BRB. Em novembro de 2025, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, prendeu Vorcaro e o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira, considerando que a situação era irrecersível. Atualmente, o ex-banqueiro negocia um acordo de delação premiada e segue preso na Superintendência da PF em Brasília, defendido por novos advogados, cujos contratos também constam nos registros enviados à CPI.

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